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Sem turismo, caça e contrabando de animais voltam a preocupar a áfrica


Com

 

 

Com a falta de recursos do turismo, a África está em estado de alerta para o aumento de práticas como o contrabando de marfim, retirado dos elefantes

Imagem: Great Plains Conservation

 

 

 

Mari Campos

Colaboração para o UOL

28/04/2020 04h00

Nas últimas semanas, a natureza deu provas que, sem a ação do homem, pode se recuperar. Vimos cisnes e arraias voltarem aos canais de Veneza, o Himalaia ser avistado de regiões da Índia após décadas encoberto, pinguins zanzando livremente por bairros da Cidade do Cabo e diversas outras manifestações da vida silvestre retomando seus espaços enquanto a população está em quarentena por conta da pandemia do coronavírus.

Porém, apesar de a natureza respirar mais aliviada com a diminuição dos índices de poluição em boa parte do planeta, há um cenário com o qual inicialmente o especialistas não contavam e que já começa a causar estrago em algumas regiões: o aumento da caça e do contrabando de animais.

Destinos que dependiam do turismo para proteger a vida selvagem estão vendo a situação ficar mais crítica a cada semana. A WCS (Wildlife Conservation Society) afirmou, recentemente, que três das poucas centenas de ibis gigante que ainda existem foram envenenados. No Cambodja, outras espécies de pássaros ameaçados de extinção também vêm sendo caçados e mortos. É o caso de mais de 100 filhotes de cegonha pintada mortos em Prek Toal Ramsar, a maior colônia de aves aquáticas do sudeste da Ásia.

O cenário que se desenha é ainda mais aterrador, segundo especialistas em proteção ambiental: sem a renda proveniente do turismo viável, não se sabe por quanto tempo as atividades anti-caça poderão continuar operando de fato.

 

Sem

Sem a renda de atividades de turismo viável, como cavalgadas na savana, operações anti-caça podem ser afetadas

Imagem: Great Plains Conservation

 

A situação de alguns destinos africanos já está complicada. "A caça vai crescer na ausência do turismo porque a mera presença dos visitantes é uma importante forma de prevenção", diz Dereck Joubert, fundador da Great Plains Conservation, entidade que possui acampamentos em concessões privadas (os chamados camps) em três países africanos: Quênia, Botsuana e Zimbábue. Ele vai além:

"Se o turismo não se recuperar e muita gente for demitida, começará um ciclo de pobreza que desencadeará a necessidade de sobrevivência e, para muita gente ao redor de parques e áreas de vida selvagem, isso pode resultar em volta à caça".

Joubert lembra ainda da possível perda cultural relacionada a esse movimento. "Grande parque das pessoas que podem ser demitidas em breve têm profundo conhecimento das técnicas para o combate aos caçadores e entendem como ninguém as regiões. Então precisamos levar isso extremamente a sério", diz.

 

A

A queda no turismo afeta também moradores comunidades ao redor de parques e áreas de vida selvagem

Imagem: Great Plains Conservation

 

Esforços para manter animais e comunidades seguros

Com sua esposa Beverly Joubert, Dereck fundou também a Rhinos Without Borders, que, assim como a Great Plains Conservation, trabalha pela preservação e conservação da vida selvagem e das comunidades locais das áreas em que suas propriedades estão inseridas.

Com a experiência de quem acompanha de perto os impactos da pandemia nestas regiões, Dereck alerta: "Caça em locais como o Kruger Park, no nordeste da África do Sul, podem ainda ter baixos índices porque, durante o lockdown, ali é mais difícil de se transportar os chifres de rinocerontes, por exemplo. Porém, em lugares com ecossistemas mais abertos, como em Botsuana, a prática já está crescendo. Só neste começo de 2020 já tivemos 31 rinocerontes caçados, um número maior que no ano passado inteiro".

Ao menos as fronteiras fechadas têm impedido que caçadores venham à África para matar por esporte"

 

O

O turismo é visto como um método eficaz de prevenção à caça: gera renda local e envolve as comunidades na preservação

Imagem: Great Plains Conservation

 

As razões do alerta

O aumento nos índices de caça de animais selvagens acontece agora por dois motivos: providenciar comida para as comunidades locais empobrecidas sem a renda do turismo ou a venda ilegal de espécimes ou partes de animais, o que coloca rangers e guarda-parques frente a frente com uma nova ameaça. "Caçadores profissionais têm enorme acesso a áreas que antes eram funcionais. Então, precisamos de esforços emergenciais anti-caça", desabafa Joubert.

A caça está sendo estimulada por contrabandistas de chifres de rinoceronte e de marfim das presas dos elefantes"Dereck Joubert, fundador da Great Plains Conservation e da Rhinos Without Borders

 

Um

Um temor é o crescimento do contrabando de marfim das presas dos elefantes

Imagem: Great Plains Conservation

 

Plano de ação

Equipes de controle e de fiscalização, ao mesmo tempo que se preocupam com os avanços da covid-19 no continente africano, promovem esforços cada vez maiores para tentar manter o alerta constante e proteger elefantes, leões, leopardos e outros tantos animais vulneráveis à caça predatória.

"Na Great Plains, pedimos por voluntários em nossa equipe de guias, formada por homens e mulheres que realmente conhecem tudo nestas áreas e nas savanas, para ações regulares de prevenção. Foi maravilhoso ver cada um deles concordando", conta Joubert. "Estamos patrulhando por terra nossas concessões e tenho usado meu próprio avião para sobrevoar as áreas e confirmar que estão seguras".

Ações sociais também fazem parte dessa empreitada. "Alocamos suprimentos médicos doados às clínicas e criamos facilidades de emergências médicas na vila mais próxima de cada concessão para garantir que nossas comunidades estejam seguras e menos sujeitas à pobreza. E, importante: não demitimos ninguém", ressalta.

No Quênia, a Gamewatchers Safaris, que administra os Porini Camps, assumiu a fiscalização em suas concessões. "Nas áreas de conservação, nossos rangers continuam patrulhando as terras diariamente, por isso, ainda não tivemos nenhum caso de caça. E estes profissionais são das comunidades, aumenta consideravelmente a inteligência necessária para manter caçadores afastados. Mesmo assim, é sempre um risco", afirma Mohanjeet Brar, diretor da Gamewatchers Safaris.

 

Animais

Animais selvagens do Olare Motorogi Conservancy, no Quênia: falta de recursos pode afetar as patrulhas anti-caça em parques e regiões remotas

Imagem: Great Plains Conservation

 

Comunidades que vivem do turismo

Até o começo deste ano, antes do abalo no turismo local, a atividade era responsável por mais de um milhão de empregos no Quênia. Segundo o último relatório da Organização Mundial do Turismo, 67 milhões de viajantes visitaram a África em 2018 — número que mostrava crescimento ano a ano. No caso das reservas de vida selvagem, o turismo chegava a responder por 100% das arrecadações anuais.

Com a impossibilidade de manter os lodges abertos e com equipes reduzidas (muitos funcionários optaram por voltar às comunidades para ficar junto às suas famílias durante a quarentena), algumas áreas de conservação preveem o declínio no número de patrulhas anti-caça, além da diminuição de salários dos membros destes grupos.

 

Até

Até o começo deste ano,o turismo era responsável por mais de um milhão de empregos no Quênia

Imagem: Great Plains Conservation

 

"O governo queniano, por meio do Kenya Wildlife Service, estava fazendo um excelente trabalho no controle da caça, em parceria com comunidades, rangers e áreas de conservação privadas. No ano passado, a taxa de natalidade de rinocerontes no Quênia foi maior que a de mortalidade, e o abate de elefantes também estava sob controle", conta Brar. "Mas a pandemia do covid-19 e o colapso do turismo colocaram todas estas conquistas sob ameaça".

Hoje, governo, setor privado e associações como Kenya Wildlife Conservancies e Maasai Mara Conservancies estão tentando arrecadar fundos para manter as áreas de conservação funcionando e garantir que todos os rangers e guarda-parques sejam pagos. Sem a renda do turismo, veremos um aumento de caça para carne, marfim e chifres de rinocerontes"Mohanjeet Brar, da Gamewatchers Safaris

No Kilimanjaro National Park, por exemplo, um corredor essencial de vida selvagem para diversas espécies — de elefantes a zebras e impalas —, dezenas de vilarejos dependiam do turismo de safári. Em muitas áreas de conservação privadas ou administradas por comunidades locais, cerca de 50% da arrecadação pelo turismo esperada para 2020 já caiu para zero. "Sem essa renda fica cada vez mais difícil providenciar comida para as comunidades e, mais difícil ainda, manter os veículos dos rangers rodando. Precisamos achar urgentemente uma solução", afirma Brar.

A Project Rhino, uma organização não governamental baseada em Durban, na África do Sul, divulgou recentemente que houve aumento de caça a rinocerontes. Apenas na primeira semana da quarentena, sete animais foram mortos. O crescimento foi atribuído à facilidade que os caçadores têm de escapar nas regiões onde a fiscalização diminuiu por conta do isolamento social e da queda na arrecadação para manter os serviços de vigilância.

 

Lodge

Lodge Mara Nyuka, na região das tribos Maasai, no Quênia: sem turistas, esforço para manter atividades sociais e de preservação

Imagem: Great Plains Conservation

 

Campanhas online de ajuda

O turismo de safári na África é considerado caro e, com a recessão econômica global, deve ser impactado por um tempo mais longo do que outras modalidades do setor. Ainda é difícil prever, mas a primeira estimativa dos especialistas é de que o segmento demore pelo menos um ano para começar a se recuperar.

Antecipando-se a esse colapso, diversas organizações, como a Nature Conservancy, já se movimentam em projetos para a arrecadação de fundos para que reservas de vida selvagem mantenham os trabalhos de proteção mesmo durante o auge da crise.

No Quênia, a Gamewatchers Safaris criou a campanha online Adopt an Acre, cujos fundos arrecadados vão diretamente para pagamento as taxas de conservação, proteção das terras e criação de renda para as comunidades. "Acreditamos que qualquer iniciativa deve estar diretamente ligada à manutenção dos povoados, para que os moradores não tenham que mudar suas terras para pastagens, cercá-las ou recorrer à matança da vida selvagem em busca de carne ou de dinheiro", diz Brar.

As doações começam em 35 dólares e há a possibilidade de investir um valor maior na forma de créditos para usar em estadias nas propriedades de safári da Porini Camps em 2021 ou 2022. "Mesmo de casa, viajantes podem ajudar enormemente a nossa causa. Nós realmente esperamos que muitas pessoas, no Brasil e no mundo todo, nos apoiem durante esses tempos catastróficos e sem precedentes", diz.

Dereck Joubert, da Great Plains Foundation, também se une ao apelo. "Apoiar a fundação, mesmo da maneira mais ínfima, nos ajuda a manter as equipes fiscalizando e a proteger nossos rinocerontes e elefantes". As doações serão revertidas ainda em novas iniciativas, como a produção de 250 mil máscaras de proteção contra o novo coronavírus.

A volta do crescimento da caça e do contrabando é um ciclo de retrocesso que precisa ser interrompido imediatamente"Dereck Joubert



Fonte da Notícia: https://www.uol.com.br/nossa/noticias/redacao/2020/04/28/sem-turismo-caca-e-contrabando-de-animais-voltam-a-preocupar-na-africa.htm



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