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Ser ativista é coisa normal


A história de Catarina Lozenzo, surfista baiana de 12 anos, que discursou na ONU sobre as mudanças climáticas

DEPOIMENTO PARA BEATRIZ CESARINI, BRENDA MENDES E TALYTA VESPADO UOL, EM SÃO PAULO

Marcelo Justo/UOL

Marcelo Justo/UOL

"Surfo desde os dois aninhos, quando meu pai me empurrou numa onda, em cima de uma prancha, pela primeira vez. Quero ser surfista de ondas grandes, é meu sonho, mas é claro que pretendo me formar também. Nunca se sabe, né? Para isso, eu treino quatro vezes por semana, sábado, domingo, terça e quinta. Só que agora dei uma pausa nos treinos de fim de semana porque tenho passado esses dias tirando óleo do mar. Essa catástrofe me deixou muito triste.

Vou ao mar vestindo botas, luvas e máscara — não pode ir sem proteção. Concilio a limpeza da praia com os treinos e a escola. Minhas matérias preferidas são ciências, matemática e português. Eu amo esporte. Jogo futsal, faço vôlei. Ando de skate e ando a cavalo.

Já participei de um monte de campeonato: surfei o brasileiro feminino da Abrasp, o brasileiro de surfe júnior e outros muitos locais. E foi há quatro anos, em um dos meus treinos, o de apneia, que ajuda a segurar a respiração debaixo d'água, que começou a história que contei na ONU, em setembro. Fui uma das 15 crianças que palestraram no evento. A única brasileira.

Eu estava treinando em uma piscina natural cheia de corais, em Maraú, e como tinha que ficar bastante tempo debaixo d'água, comecei a reparar neles. Percebi que o maior coral que tinha ali, um que era rodeado por outros, estava cheio de pontinhos brancos. E aprendi com meu pai, que é biólogo, lá atrás, que os pontinhos brancos mostram que o coral está morto.

Aquilo me assustou. Na mesma hora, percebi que a água estava muito, muito quente perto da superfície. Parecia água de chuveiro, ou que tinha sido fervida numa chaleira. Mergulhei e toquei a areia, na tentativa de fazer a água esfriar. Só que a areia também estava quente. Aquilo me fez mal. Não aguentei a temperatura e saí da água, logo pensando: 'Se eu não aguentei, como os peixes, leões marinhos e até os corais aguentam essa quentura? Tem alguma coisa errada'.

Isso mexeu comigo, sabe? Na mesma época, contei essa história para uma amiga californiana que passava férias em Salvador. Ela não entendeu direito. Na Califórnia, a água é muito fria então, para ela, a temperatura do mar aqui no Brasil já é quente. Fica difícil perceber a diferença. Depois de um tempo, ela voltou para o Brasil e, enquanto a gente brincava nas piscinas naturais, mostrei a ela o tanto de corais mortos que tinha ali. E ela foi se interessando, se interessando...

SurvivePhotos/Arquivo PessoalSurvivePhotos/Arquivo

Marcelo Justo/UOL

Quando voltou para a Califórnia, encontrou alguns colegas que participam voluntariamente de uma instituição que cuida de oceanos e recupera corais no mundo todo. E ela contou minha história para alguns deles. Eles entraram em contato com a minha mãe pedindo para encaminhar minha história para o pessoal que faria a petição na ONU, que ia falar dos problemas das mudanças climáticas. Minha mãe autorizou depois de eu muito insistir. E, quando fui aprovada, disse a ela: 'Minha mãe, agora a senhora vai ter que deixar eu ir!'.

Fiquei feliz demais quando soube que eu iria para a ONU. Sei que o fato de eu viver na natureza e de falar inglês fluente interferiram na decisão. Mas, olha, não dá para expressar com palavras minha alegria quando descobri. Só foi cair a ficha quando chegou minha vez de discursar.

Olhei para a minha mãe e disse: 'Não acredito que tô aqui, minha mãe. Tem certeza de que tô aqui?'. Então, entrei no hall e quando vi um monte de câmera, um monte de jornalista, pensei: 'É real. Aconteceu. Estou fazendo história e vou, de algum jeito, mudar o mundo'. Contei minha história e, agora, estou tocando um projeto para recuperar esses corais. Ainda está no comecinho, mas vai dar certo.

Kena Betancur / AFPKena

Lá, conheci a Greta [Thunberg]. Que potência, que força ela tem. É uma energia muito forte. Ela era bem quietinha, parecia uma boneca de porcelana. Dava vontade de abraçar. Eu conheço uma pessoa que tem o mesmo tipo de autismo que ela [Síndrome de Asperger] e vejo essas pessoas como especiais, com uma sensibilidade além da nossa. Senti isso com a Greta, foi só olhar nos olhos dela. Ela foi muito gentil, pedia o tempo todo que os repórteres falassem com as outras crianças, também, e não só com ela. É uma grande inspiração para mim. Sei o quão difícil para ela foi ter de enfrentar esse monte de câmera. Ela se esforçou mais que todo mundo.

Além do discurso da Greta, ouvi histórias muito fortes — algumas muito tristes. As 15 crianças que discursaram ali estão, de alguma forma, sendo afetados por atos humanos. Um deles mora numa ilhota que começou a ser invadida pelo mar. Ele perdeu a casa porque o mar cobriu, teve que se mudar com a família mais para dentro da ilha. E, ele contou que se as mudanças climáticas continuarem no ritmo em que estão hoje, em 10 anos, a ilha vai desaparecer. Imagine você perder o país em que nasceu e viveu? Não é porque um país é menor que é menos importante. É assustador.

Outro garoto contou que costuma pescar salmões e que, de uns tempos pra cá, não tem encontrado mais esse tipo de peixe no mar. Os salmões são de água gelada e, com o aumento da temperatura, eles têm morrido.

Marcelo Justo/UOLMarcelo

A garota indiana que palestrou contou que o pai da melhor amiga dela morreu numa inundação atípica. O mundo precisa parar e pensar o que está fazendo com a natureza. Os cientistas mostram as estatísticas, mas ninguém liga. A gente foi lá provar, com as nossas histórias, que tudo isso é real.

Mas, veja, apesar de ter ido para a ONU, não sou famosa, famosa. Continuo vivendo minha vida normalmente, como antes. Só que agora me sinto ainda mais responsável pelo meio-ambiente. Participo de grupos de prevenção e vivo pedindo que as pessoas contribuam de alguma forma. Ser ativista é coisa normal. Ainda mais para mim, que cresci no meio da natureza. Eu vejo como o clima tem mudado, como a natureza tem sofrido.

O surfe faz parte da minha vida. Na minha família, são 30 surfistas. Quando fui para Jaws [Havaí] e vi as ondas grandes, gritei 'Quero dropar, quero dropar'. Minha mãe logo disse 'Não, não, tá muito grande. Deus é mais'.

Arquivo PessoalArquivo

Marcelo Justo/UOL

Aí a gente foi para Ho'okipa, outra praia do Havaí, e eu peguei a maior onda do dia. Dropei uma onda cinco vezes maior do que eu, cara. Eu era pequena e meu pai me empurrou na onda. Dropei, mesmo, não tenho medo, não. Eu amo o surfe. Ele gritava 'rema, rema' e eu remava, sem medo.

O pessoal local de lá me deu um adesivo para a prancha que significava que qualquer um que quisesse entrar na minha onda tinha que sair do mar. Fui respeitada pela onda que peguei aos nove anos, acredita? Eles me deram, também, uma prancha.

No Rio de Janeiro, caí de uma onda de dois metros e meio. Tomei a vaca depois de dropar, caí e o elastiquinho da prancha enroscou na minha barriga e puxou. Na hora, só pensei na Maya Gabeira. Ela é minha inspiração. Quase morreu e mesmo assim não desistiu, pegou a maior onda surfada por uma mulher. Decidi também não desistir.

Marcelo Justo/UOL

Agora, além do surfe e da escola, tenho outras atividades. Estou em São Paulo para palestrar sobre o meio-ambiente, por exemplo. Minha mãe que cuida da minha agenda e eu acho que sou muito sortuda, tenho uma família grande. Um me leva para treinar, outro para as entrevistas.

Sou muito estudiosa e tiro notas boas. Acordo, e vou logo para cozinha fazer meu café da manhã. Volto da escola e coloco a roupa suja na máquina de lavar antes de dormir. Sempre tiro dois dias da semana para arrumar o quarto, passo pano e gosto de tudo organizado. Minha mãe não tem faxineiro, então todo mundo se ajuda. Né, mãe?

Mas uma das coisas que eu mais gosto mesmo é ler, sabia? Leio oito livros no mês, minha mãe até briga comigo para eu parar de ler. Mesmo em época de campeonato de surfe e de casa cheia, eu me escondo num cantinho para ficar lendo. Agora, estou no segundo livro do Harry Potter. Tinha começado pelos filmes, mas, como fui curtindo, parei de assistir para poder ler. Agora mesmo, antes de vocês chegarem, pedi à minha mãe que me desse cinco minutinhos só para eu terminar uma página. Se eu pudesse, passaria todos os dias lendo."



Fonte da Notícia: https://www.uol.com.br/esporte/reportagens-especiais/catarina-lorenzo-a-surfista-brasileira-de-12-anos-que-representou-o-brasil-na-onu/index.htm#ser-ativista-e-coisa-normal



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