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O rapaz e o co


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Kodi Smit-McPhee e o seu fiel amigo em “Alpha”


É uma história ?de sobrevivência há 20 mil anos, quando o homem aprendeu a domesticar canídeos selvagens e ganhou aliados para a vida


Jorge


JORGE LEITÃO RAMOS


Em 1981, “A Guerra do Fogo” de Jean-Jacques Annaud atrevia-se a ir aos tempos pré-históricos para figurar o momento em que os homens descobriram a arte de produzir/dominar o fogo e, com isso, se tornaram mais humanos, até nas artes da libido que, até então, pelo menos no filme, eram dominadas apenas pelo grande impulso da reprodução da espécie. Quem viu o filme — e quem não viu há que tentar vê-lo porque é obra notável — deve lembrar-se que uma das maiores apostas de Annaud foi a ausência de linguagem verbal percetível dos nossos antepassados, confiando a inteligibilidade do filme ao poder das imagens. Era uma afirmação nobre no poder do cinema e, ao mesmo tempo, uma forma de assumir um facto: ninguém sabe que línguas falavam os homens primitivos e, em vez de fingir naturalisticamente um idioma, melhor deixar a comunicação entre eles reduzida a fonemas básicos sem equivalente atual.


Muitos anos volvidos sobre o filme de Annaud, numa ação milénios posterior à de “A Guerra do Fogo”, Albert Hughes não quis seguir idêntica e radical postura e inventou uma língua para os europeus de há 20 mil anos, ainda havia mamutes a rondar por aí. Fez mal: a larga maioria dos diálogos são supérfluos, praticando uma confirmação/explicação do que já tínhamos entendido, em enervante redundância.


A história de “Alpha” é de uma meridiana simplicidade. Filho de um chefe tribal, o jovem Keda (Kodi Smit-McPhee) parte com o pai (Jóhannes Haukur Jóhannesson) e um grupo de outros homens da tribo para a grande caçada anual aos bisontes, que lhes garanta alimento e agasalho para o longo inverno de neves severas, na época glaciar em que o filme se situa. O processo de caça é básico, embora engenhoso: rodear uma manada à beira de uma falésia, assustá-la por via de muita gritaria, fazer uma espécie de cerca com lanças que limite o espaço de fuga dos animais e provocar que um grande número acabe por se despenhar no estouro da boiada. Depois é só ir ao fundo do desfiladeiro esquartejar os caídos. Mas nem todos os bisontes apontam para o abismo. Há tresmalhos — e um deles assesta direito a Keda... A cena da caçada — que abre o filme — é muito impressiva e demonstra um bom equilíbrio dramático e uma perfeita mestria nas imagens de síntese onde a manipulação digital tem parte de leão. Pena que o resto do filme não seja assim. Keda, muito ferido, dado como morto, vai ter de voltar para casa sozinho, ao mesmo tempo que prova a si mesmo e aos outros que a sobrevivência não é só uma questão de força física, de tolerância ao sofrimento, mas um processo onde outros recursos poderão ser decisivos. No caso — e é esse o cerne do filme — Keda consegue domesticar um canídeo selvagem (um lobo?) e é numa parceria de entreajuda (porventura) inaugural para a Humanidade que consegue chegar ao seu destino, ao mesmo tempo que abre uma porta para o futuro da sua tribo, como as imagens finais deixam entrever. Mas todo esse caminho — não demasiado longo, o filme só dura 96 minutos, parece mais — é tão previsível, uma vez instalados no coração da coisa, que até à espetacularidade de algumas sequências (como a da queda no lago gelado) parece diminuída. Um ambicioso filme para toda a família sem tonicidade dramática bastante para nos agarrar é uma oportunidade perdida.


 



Fonte da Notícia: https://expresso.sapo.pt/cultura/2018-09-02-O-rapaz-e-o-cao#gs.Gd7pRsk



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