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mosquito transgnico arma contra epidemias


 


Por José Tadeu Arantes e Renato Piovesan


   


Em


Christiano Dhiel Neto/Gazeta de Piracicaba


Em abril de 2017, o projeto 'Aedes do Bem' alcançou 81% de supressão das larvas em um bairro da cidade


Ao lado do desenvolvimento de vacinas, a produção de mosquitos geneticamente modificados pode se tornar uma das armas mais eficientes para o enfrentamento das epidemias de dengue, chikungunya, zika e febre amarela.


Machos transgênicos de Aedes aegypti, dotados de espermatozoides defeituosos, foram criados no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP) e poderão ser produzidos em escala-piloto ao longo do próximo ano.


“Esses machos transgênicos procuram fêmeas selvagens onde quer que elas se encontrem – inclusive em locais inacessíveis à ação humana. Devido ao defeito introduzido em seus espermatozoides, os ovos resultantes da cópula são inviáveis e isso contribui para a diminuição da população de Aedes aegypti”, disse Margareth Capurro, professora do ICB-USP e principal responsável pelo desenvolvimento desse mosquito modificado por transgenia.


A pesquisadora ressalva que o Aedes aegypti transgênico não deve ser entendido como estratégia exclusiva de combate, mas como parte de um controle integrado, que vai da educação da população ao desenvolvimento de vacinas, passando pela eliminação de potenciais criadouros (depósitos de lixo, plásticos, garrafas, pneus) e pelo uso de larvicidas e inseticidas.


“Esse mosquito é um produto brasileiro. Seu desenvolvimento teve financiamento da Fapesp e da Agência Internacional de Energia Atômica (organização autônoma no âmbito da ONU, Organização das Nações Unidas). Por isso, em vez de ser apropriado por alguma empresa privada, com objetivo de lucro, ele deve ser distribuído gratuitamente pela ONU para os 44 países envolvidos no controle de mosquitos. Já argumentei, inclusive, que não cabe requerer patente, pois a tecnologia deve ser doada para qualquer país que a queira adotar”, disse Margareth.


Segundo ela, foi concluída a fase 1 da pesquisa, com a produção do mosquito no campus da Universidade de São Paulo, em laboratório do ICB-USP.


Fase 2


“No próximo Verão, terá início a fase 2, que é o teste em gaiola de campo. Os mosquitos serão confinados em espaços grandes, com 3 metros quadrados de base, imersos no ambiente natural. O objetivo é saber se eles sobrevivem e são capazes de copular na presença de ventos ou de chuvas. Esse é um teste importante, pois, quando fazemos uma modificação genética, além das características de interesse, podemos induzir também características indesejáveis”, explicou a professora, que conduziu o projeto de pesquisa “Avaliação e melhoramento de linhagens transgênicas de Aedes aegypti para controle de transmissão de dengue”, apoiado pela Fapes.


A fase 2 será realizada na biofábrica da Moscamed Brasil, em Juazeiro, na Bahia. Essa instituição parceira é uma organização social, sem fins lucrativos, criada com base no programa da Agência Internacional de Energia Atômica para o desenvolvimento de variedades estéreis da mosca-da-fruta do Mediterrâneo – daí o nome Moscamed. Tal programa já inspirou a criação de várias biofábricas para produção de insetos transgênicos ao redor do mundo.


Produção em escala-piloto


Cada ciclo de vida de mosquito leva 30 dias. Por isso, a fase 2, com a criação de várias gerações e as respectivas avaliações, precisará se estender por seis a oito meses, aproximadamente de setembro de 2018 a março/abril de 2019.


Se tudo correr bem, na transição de 2019 para 2020, pode-se ingressar na fase 3, que será a produção do Aedes aegypti geneticamente modificado em escala-piloto, em quantidades de aproximadamente 500 mil indivíduos por semana.


Nessa fase, o produto poderá receber ainda alguns ajustes. A etapa seguinte será a implementação da estratégia em grande escala. Para isso, a biofábrica de Juazeiro já possui capacidade instalada para produzir 14 milhões de mosquitos transgênicos por semana.


“Mas a produção em Juazeiro ou em outro lugar depende de várias considerações logísticas, que precisam contabilizar custos de produção, custos de transporte, contratação e treinamento de pessoal qualificado etc. Minha intenção é entregar a tecnologia pronta para o Ministério da Saúde e outros ministérios, para que, se houver interesse, seja criado um programa voltado para a implementação. Como o produto será entregue também à ONU, mesmo que o Brasil decida não implementar o programa, outros países poderão implementá-lo”, disse Capurro.


Indaiatuba e Piracicaba testam o 'Aedes do Bem'


Indaiatuba e Piracicaba já estão testando os mosquitos geneticamente modificados, conhecidos como 'Aedes do Bem', que visam combater o Aedes aegypti, causador de doenças como dengue, zika e chikungunya. Indaiatuba é a primeira do Brasil a lançar para o ar a linhagem OX5034, uma evolução do inseto, que já foi testado e utilizado em municípios como Piracicaba e Juiz de Fora desde 2015.


A Liberação Planejada no Meio Ambiente (LPMA) da nova linhagem do 'Aedes do Bem' foi aprovada pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio) em agosto de 2017, no entanto, as dificuldades burocráticas na obtenção de todas documentações necessárias provocaram um adiamento da liberação dos mosquitos conforme a programação inicial, que havia traçado inicialmente a soltura dos insetos em abril.


Os 'Aedes do Bem' são mosquitos machos que, portanto, não picam e não transmitem doenças. Uma vez soltos em uma área infestada por mosquitos selvagens, eles buscam as fêmeas para neutralizar a oportunidade de reprodução destas.


Por ser geneticamente modificado, o 'Aedes do Bem' dá origem a uma prole inviável que, com isso, provoca a redução da população do mosquito transmissor da doença, ao passar adiante o gene autolimitante que possui.


A parceria entre a Prefeitura de Indaiatuba e a empresa Oxitec não gerou custos ao município. As avaliações se estenderão por 36 meses, passando por diferentes áreas.


Piracicaba


O projeto 'Aedes do Bem', em Piracicaba, em abril do ano passado, anunciou os primeiros diagnósticos após a soltura dos mosquitos geneticamente modificados nos bairros Centro e no São Judas. Na época, a iniciativa alcançou 81% de supressão de larvas selvagens do Aedes aegypti na área tratada, em comparação com a área não tratada. Foi o segundo ano consecutivo que o nível de supressão excedeu 80% no bairro da região Leste, onde ‘Aedes do Bem’ era utilizado no município desde julho de 2015.


No bairro São Judas, região onde o 'Aedes do Bem' foi liberado pela primeira vez em meados de 2016, a redução de larvas selvagens do Aedes aegypti alcançou 78%, na comparação com a área não tratada, em apenas seis meses.


Fábrica de 'Aedes do Bem'


Em outubro de 2016, uma fábrica capaz de produzir 60 milhões de mosquitos geneticamente modificados por semana para combate ao Aedes aegypti. A fábrica tem 5 mil metros quadrados e fica no distrito industrial Unileste. Foram gastos cerca de R$ 20 milhões para construção do local, que ampliou em 30 vezes a capacidade de produção da Oxitec, que já tinha sede em Campinas (SP).



Fonte da Notícia: http://correio.rac.com.br/_conteudo/2018/06/campinas_e_rmc/569628-mosquito-transgenico-e-arma-contra-epidemias.html



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