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Língua azul


A Língua Azul (LA) é uma doença viral, não contagiosa, que afeta ruminantes domésticos e selvagens e tem como vetores os dípteros do gênero Culicoides. Esta enfermidade foi descrita pela primeira vez na África do Sul, em 1876, e apenas em 1902 foi detalhada por Hutchen, recebendo o nome de “Epizootia catarral das ovelhas”. Neste mesmo ano, acabou recebendo o atual nome, devido à coloração roxa escura ou azulada, observada na língua e na mucosa oral dos animais infectados. No ano de 1906, foi demonstrado que esta doença é causada por um vírus.


São reconhecidos, no mundo todo, 24 sorotipos distintos do vírus da Língua Azul (BTV), sendo que não se conhece ainda como cada sorotipo manifesta-se clinicamente. Normalmente, encontra-se apenas um sorovar em um surto. Entretanto, em locais onde é comum a ocorrência da doença, diferentes sorotipos podem ser observados em um mesmo surto.


A incidência desta enfermidade é muito variável. A taxa de mortalidade e o grau de severidade dos sinais clínicos dependem da espécie em questão, da raça e da idade do animal, do seu estado imunológico e do sorotipo infectante. Esta doença pode ser severa em certas raças de ovinos e em alguns cervídeos, no entanto, raramente causa doença em bovinos, caprinos e em grande parte dos ruminantes selvagens. Nos bovinos a morbidade é extremamente baixa, mas há perdas indiretas, assim como há para ovinos também, relacionados à queda no desempenho reprodutivo, abortos, diminuição da condição corporal e diminuição da produção leiteira.


As células endoteliais do sistema vascular e do sistema linforeticular são as primeiras a serem invadidas pelo BTV. A infecção dos linfonodos irá levar a uma viremia, infectando outras estruturas, assim como outros linfonodos, baço, medula óssea e outros tecidos do organismo. O BTV multiplica-se, gerando patologias características da doença. Há hipóteses de que este vírus interaja de modo diferente com as células endoteliais da diferentes espécies animais, acabando por resultar em diferenças na patogenia vascular.


A doença nos ovinos e nos cervos é mais grave, com lesões inflamatórias em tecidos vascularizados, como mucosas. Já nos bovinos, esta doença é caracterizada por uma viremia prolongada (até 100 dias), ou por uma doença mais leve, ou assintomática. Quando a infecção ocorre em vacas prenhes, pode haver má formação congênita (hidrocefalia, microcefalia, cegueira e deformações mandibulares).


Quando a espécie bovina apresenta sinais clínicos, estes são: febre; inapetência; salivação; edema dos lábios; edema nas patas; manqueira; corrimento nasal com lesões ulcerativas da língua e cavidade oral; hiperemia ou cianose nos lábios, língua ou focinho; excessiva salivação; lacrimejamento; hálito fétido. Nos touros, a infecção aguda esta relacionada com infertilidade passageira.


Já  os ovinos podem apresentar um quadro febril que se mantém por 5 a 6 dia; salivação; hiperemia das mucosas oral e nasal; corrimento nasal mucopurulento, podendo ser corado com sangue; sialorréia; edema dos lábios, gengivas e língua; hálito fétido; úlceras lenticulares necróticas na língua; ulceração da mucosa oral e ao redor da vulva e â;nus; dificuldade no ato de deglutir; dificuldade para respirar; lesões podais; torcicolo; fraqueza muscular; edema facial, orelhas pendentes e hiperemia da pele sem lã podem estar presentes; pode haver conjuntivite acentuada, com lacrimejamento profuso. Quando esta doença acontece em áreas enzoóticas, ela é menos grave e quase sempre inaparente.


O diagnóstico clínico, com exceção da forma clássica e grave, pode ser muito complicado em conseqüência da dificuldade do reconhecimento desta doença à campo. Nos ovinos, a febre, edemas na cabeça, mucosas congestionadas e ulceradas, são um bom indício de LA. Já em bovinos, o diagnóstico clínico é praticamente impossível. Faz-se necessário o uso de técnicas de diagnóstico laboratoriais através de estudos sorológicos, isolamento ou identificação do agente.


O tratamento é feito com irrigações locais com desinfetantes suaves, apenas para proporcionar alívio. Os ovinos devem ser protegidos do clima quente e deve receber terapia com líquidos e eletrólitos; tratamento para controlar possíveis infecções secundárias pode ser realizado.


As medidas preventivas baseiam-se na ação sobre o vetor, na vacinação e nas barreiras criadas para evitar a movimentação de animais, de sêmen, óvulos e embriões contaminados. A redução da exposição ao vetor pode ser feita através de pulverizações de repelentes e inseticidas nos animais, embora não seja muito eficaz.


A vacinação é o procedimento considerado de controle satisfatório. Não elimina a infecção, mas mantêm níveis muito baixo de perdas, desde que a imunidade de todas as cepas locais seja atingida. Estas são feitas com cepas de vírus polivalentes atenuados e causam leves reações. No entanto, as ovelhas não devem ser vacinadas quando prenhes, pois pode levar a deformações dos cordeiros ou morte embrionária.



Débora Carvalho Meldau

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