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Por que existem pessoas preconceituosas? entenda por que julgamos o outro


Dr. Cristiano Nabuco


06/11/2018 04h00


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Photo by Ming Jun Tan on Unsplash


Imagine uma criança que acabou de nascer e, sem experiências anteriores, começa a interagir com o meio ambiente. Como se sua mente fosse ainda um papel em branco, sem qualquer registro anterior, as vivências vão, aos poucos, criando um pequeno rastro de experiências que vai sendo registrado. É dessa forma que a vida compila as primeiras memórias no cérebro infantil.


Obviamente que a consciência, como a entendemos na idade adulta, está longe de existir e apenas as impressões do que estamos passando, vagarosamente, são catalogadas. Como estamos em pleno crescimento, ainda não enxergamos bem, não ouvimos corretamente e nossa coordenação motora ainda está longe de ser satisfatória.


Apenas próximo aos dois anos de idade que a nossa autoconsciência surge e, com ela, seguimos a passos largos, aprendendo e aprimorando as experiências de vida pelas quais vamos nos submetendo.


É assim que adquirimos repertórios dos mais variados comportamentos, ou seja, como agir quando o assunto é alimentar, como reagir frente às pessoas conhecidas, como interagir com os estranhos, como obter o que desejamos de nossos pais (fazendo "gracinhas" ou birra, por exemplo), compondo, assim, um esquema mental um pouco maior de ações, sempre à disposição para ser consultado, automaticamente, quando uma nova situação se apresenta.


Semelhante a um computador, à medida que crescemos ainda mais, nosso cérebro passa a classificar as lições de vida em categorias maiores que são agrupadas e se tornam as chamadas "crenças" –ou pacotes de valores — que, catalogadas em nossa consciência, tornam-se os "mapas do mundo" que carregaremos, à medida que o tempo transcorre.


Aos poucos, por fim, nossas funções mentais se aprimoram um pouco mais ao longo da primeira década de vida, até que, próximo à maioridade, estaremos quase que em pleno funcionamento cognitivo e aptos, portanto, para trazer à tona, sempre que necessário, nossos registros passados, contidos nesses esquemas de ação interiorizados por nossos pensamentos e pelas experiências de vida acumuladas.


Finalmente, após 21 anos, em plena atividade mental, estamos aptos a pensar livremente e agir de acordo com uma consciência pessoal e social maior, irrestrita.


Embora grande parte das vivências pelas quais passamos ao longo dessas duas décadas esteja arquivada nas gavetas de nossa consciência, parte expressiva de nossos impulsos e ações – aquela herdada de nossos antepassados – fica armazenada nos porões de nossa mente e, em algumas situações, assumem um controle (mais instintivo) de nosso comportamento social.


Sob a influência de suas forças


Dessa forma que agimos e vivemos, isto é, muitas vezes comandados por uma lucidez e clareza de pensamento, enquanto que, em outras circunstâncias, pouca percepção temos dos ímpetos pelos quais nossas emoções mais básicas nos impulsionam a agir.


Essa arena de encontro de forças, por assim dizer, é derivada de uma consciência mais amadurecida –proveniente das operações de nosso córtex pré-frontal — e, por outro lado, influenciada pelos nossos impulsos mais primitivos de ação –originados em nossa amígdala cerebral e de caráter mais biológico.


Isso explica a razão pela qual, sob certas circunstâncias, agimos de maneira mais impulsiva e desprovida de maior equilíbrio, enquanto que, em outras situações, somos providos de maior sensatez.


Vários comportamentos de nosso cotidiano claramente retratam esses processos. Por exemplo, quando nos alimentamos, é frequente "perdermos a mão" e, assim, acabarmos por ingerir mais comida do que precisaríamos, pois, ainda trazendo o registro indelével de um passado remoto das privações de comida, instintivamente nos alimentamos em maior quantidade, ou seja, nosso cérebro se antecipa e nos "protege" de uma eventual falta de alimentação futura ao assegurar uma "reserva extra". Às vezes, também agimos de maneira mais descontrolada, quando alguém nos frustra por alguma coisa, por menor que ela seja.


Nossa consciência presente, assim, precisa estar sempre atenta para poder modular esses impulsos mais antigos e calibrar nossa vida emocional de maneira mais moderada e prudente, em concordância com os princípios lógicos e morais.


Um pouco mais além


Torna-se óbvio, assim, que grande parte de nossas ações sofre uma profunda interferência de nossa história pregressa e, ao encontrarmos grupos que partilham de pontos de vista semelhantes, desenvolvemos com mais robustez parte expressiva de nossa rede dos valores que compõem os julgamentos sociais e morais que carregamos ao longo da maturidade.


A questão, portanto, a ser colocada aqui é: se, claramente, estamos evoluindo enquanto pessoas, desde nossos antepassados, por qual razão certas normas e princípios morais –inadequados e disfuncionais, diga-se de passagem, pois promovem o julgamento e a segregação social –, ainda estão presentes em nossa cabeça? Ou ainda, olhando para trás, qual teria sido a função do preconceito para ainda serem assim tão fortes em nossa sociedade?


Eu vou explicar.


Pesquisadores interessados nas questões que envolvem o preconceito social tentaram descobrir quais seriam as raízes do comportamento de hostilidade e de rejeição social que muitos, amplamente, manifestam até os dias de hoje.


Segundo antropólogos, em épocas remotas, vivíamos em pequenos grupos de humanos –contendo, aproximadamente, 130-150 pessoas — e, como as circunstâncias da época eram bastante adversas, permeada por ambientes inóspitos, achar comida e água, por exemplo, era algo extremamente vital para a sobrevivência de todos. Era muito comum, entretanto, que, nesses contextos, bandos distintos de pessoas se encontrassem e, dessa maneira, era esperado que competissem uns contra os outros, por um naco de comida que fosse e assegurando assim mais um dia de vida.


Estudos recentes então revelaram que os preconceitos que carregamos, em muitas situações, operam, na verdade, fora de nosso controle consciente, ou seja, um mecanismo denominado de "tendência implícita" faz com que desconfiemos de pessoas que sejam, de alguma maneira, diferentes de nós e, mais do que isso, tal funcionamento de "exclusão social" espontânea teria então bases de origem junto aos nossos antepassados –a exemplo dos demais comportamentos já descritos –, uma vez que pessoas que eram percebidas como estranhas ou "incomuns", por serem derivadas de  grupos diferentes, poderiam apresentar um sério risco à sobrevivência, ao competirem pela pouca comida disponível.


Pesquisadores consideraram, portanto, a existência de um "viés implícito de avaliação" que, gravado inconscientemente faz com que, depois de centenas de milhares de anos –até os dias de hoje –, nossas crenças sociais a respeito das pessoas que sejam diferentes de nós reflitam, no fundo, associações ainda enraizadas na biologia de nossos cérebros, e mudá-las não seria algo tão fácil e simples assim, pois implicaria em tipo de "reconfiguração" de nossos processos mentais mais primitivos de conservação da vida.


 


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Photo by rawpixel on Unsplash


Conclusão


Essa discussão nos coloca no ponto em que, possivelmente, nossa genética, conforme dito há pouco, ainda nos faça organicamente estranhar os indivíduos que, de alguma forma, evoquem a sensação de diferença. Todavia, ainda que possamos ser induzidos por essa herança genética de sobrevivência, devemos, a exemplo de tantas outras condutas comuns em nosso cotidiano, exercer o freio mental e silenciar essas "crenças biológicas" de marginalização dos demais e, finalmente, poder compreender que a segregação social, no fundo, precisa urgentemente ser filtrada e superada, de uma vez por todas, pelos níveis mais evoluídos de nosso cérebro atual.


Ao agirmos assim, poderemos, finalmente, compreender que todos nós somos derivados de uma mesma origem comum universal, e dessa forma se torna imprescindível que nossas barreiras mentais sejam, de uma vez por todas, derrubadas em prol de um convívio mais equilibrado e racional.


O preconceito e a discriminação, infelizmente, apenas encontram guarida em mentes estreitas e primitivas, uma vez que, depois de transcorridos milhões de anos, ainda há pessoas que até o momento não conseguiram compreender que todos os povos e grupos humanos –seja qual for sua composição e origem étnica –, contribuem com suas próprias características para o progresso e o avanço e, assim sendo, devem ser vistos como um patrimônio maior da humanidade.


Portanto, caso isso ainda lhe venha à mente, procure, ao menos, ser mais empático com a diferença e, assim, neutralize um pouco que seja a origem do preconceito social que, por vezes, lamentavelmente insistimos em carregar.



Fonte da Notícia: https://cristianonabuco.blogosfera.uol.com.br/2018/11/06/a-origem-do-preconceito-social/




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