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Recebi há pouco, pelo e-mail, um ofício circular, expedido pela Administração da UFMT. O número da correspondência é 13! Bem sugestivo, dado o seu conteúdo e o momento.
O momento está marcado por vibrante greve dos docentes e técnicos, com apoio estudantil. Poucas vezes a comunidade universitária viu – com facilidade – a pertinência de uma greve. E a greve nas federais tem responsável direto.
Quem? O governo federal, que descumpriu um acordo. Detalhe: no momento, o ParTido da ordem é o mesmo que se projetou em cima de greves, inicialmente as ocorridas no ABC paulista, ainda nos anos 70. Seu número nas instâncias eleitorais é exatamente o 13. Boa coincidência.
E o conteúdo do ofício 13? Pra variar, econômico. É mais uma “orientação” de contenção de gastos. Café pequeno: já estamos acostumados. De qualquer forma, eis o seu teor: “Visando priorizar as demandas institucionais relativas ao funcionamento da graduação e da pós-graduação, orientamos que todas as contratações de serviços e/ou aquisições para atender eventos (acadêmicos), tais como espaço físico, camiseta, bolsa, coffe break (sic.), entre outros, só serão custeados com renda própria, arrecadada pela própria Unidade Acadêmica, promotora do evento, que deverá buscar recursos externos”.
Visto assim, a “orientação” – além de nos impor atividades de promoters – passa a ideia de que, se as Unidades Acadêmicas (UA) não solicitarem recursos aos itens acima, ao restante quase tudo está garantido para o “funcionamento da graduação e da pós”, o que não é vero.
As UA vivem de “esforços cavalares” (expressão usada por um docente em Assembleia do Sindicato) de seus professores, acentuadamente dos que ainda aceitam ser chefes de departamentos e coordenadores de cursos.
Digo “ainda” porque, em muitas UA, os docentes – pelo menos para esses espaços administrativos – já não se apresentam livremente ao processo de escolha entre os pares. Isso porque as condições de trabalho exigem um “esforço cavalar” atrás do outro, o que contraria a lógica da vida acadêmica.
Com todo respeito aos cavalos – nos quais, não por suas vontades, se montam para “n” atividades –, mas a coruja – símbolo do esforço intelectual – é que deveria orientar nossas vidas. Logo, deveríamos viver de “esforços corujares”, não “cavalares”.
O esforço cavalar obriga – p. ex. – os docentes à realização de serviços que vão além de suas obrigações. Chefes e/ou coordenadores, com exceções, são também office boys, secretários, telefonistas e motoristas das federais; detalhe: de seus próprios automóveis. Logo, há gente pagando para trabalhar, pois nem todas as UA dispõem de técnicos para tais serviços. Quando os têm, nem todos estão aptos para as atividades. O acúmulo de funções, além de causar estresse, impede que o docente se atualize.
Quem não ocupa tais cargos não está isento de “esforços cavalares”. Depois da imposição do Reuni, nossas atividades dobraram. Temos mais turmas e mais alunos em sala. Ainda somos obrigados a publicar artigos acadêmicos periodicamente e participar de eventos científicos. Além disso, temos de realizar pesquisa e extensão.
Assim como no comércio, vivemos também de “bater metas”. É tenso! Tão tenso que uma colega já aposentada – zelosa em tudo que fazia e uma das pessoas que me serviram de exemplo – me disse certa vez que não queria ficar devendo nada à Universidade, pois – na dúvida – se houver a reencarnação, não queria “voltar professora”. E ela era uma das melhores docentes que já vi.
Isso é um pouco do quadro.
*ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. Jornalismo/USP; Prof. Literatura/UFMT
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